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sexta-feira, 3 de outubro de 2014

50 Tons x Mulher de Malandro.

"Quando o cara é feio e pobre e bate na mulher é lei maria da penha, se é rico e bonito é 50 tons de cinza".

Posso estar redondamente enganado, mas pelo que converso por ai tem gente se inspirando numa história de mulher de malandro com toques de refinamento.
Conforme a piada acima, que me contaram hoje, questão de ponto de vista ou de uma bela edição.
Submissão existe em escalas diversas, é óbvio, afeta uma série de decisões e posturas, mas daí a achar que temos Dominação vai uma distância.
O conceito popular e, muitas vezes preconceituoso, é de que mulher de malandro é aquela que gosta de apanhar, ama o seu "sádico" e tem um medo terrível de perdê-lo. Com pequenas variações, gira em torno disto.
Mas no fundo, não é a história de 50 tons?
Então sou rico, bonito, elegante e ganho passe livre pra bater?
Repito, estou reproduzindo aqui uma leitura constante, de muitas mulheres que num primeiro momento se encantaram com o Sr. Grey, até que tiveram a sabedoria de se informar melhor.
O legal do marketing deste caso é que brotam novos Doms usando o nome do personagem ou variações, não bastasse o efeito que causa nas mulheres, até os homens estão "colhendo" os frutos.
Nada contra o livro, sua história, até tentei ler, mas... Me lembrou aqueles livrinhos antigos que vendiam em banca de jornal. Acho que toda forma de expressão, de relato, de criação é válido, mas deve se sujeitar ao senso crítico das pessoas, e é isto que faltou.
E virou moda teatralizar sexo com pegada, submissão ou seja lá o que for. Se sujeitar mesmo ao peso da entrega ninguém quer.
Espero que fique evidente aqui que não é o livro o meu foco, mas sim o entendimento que tiram do conteúdo.
Submissão, como eu disse e aqui repito, se revela em diversos momentos e circunstâncias, até na mulher do malandro, e é justamente o não entendimento do que é e como funciona que faz de tanta gente vítima, refém de seus desejos.
Existe sim um "mundo" onde tudo isto é tratado com respeito e responsabilidade (ao menos existia), onde se busca não só o entendimento mas tirar dali algo mais nobre, mais profundo e que enriqueça os envolvidos de maneira plena.
Não dá pra ser algo caricato como 50 tons ou tantos outras obras.
Até as melhores obras (cito A Secretária, História de Ó que de formas diversas mostram com rara sensibilidade o tema) devem ser absorvidas com os devidos filtros, senso.
Convenhamos, ficção demais atrapalha, pior que tem gente que acredita e repete aquilo como se verdade absoluta fosse, se travestindo de Sr. Grey. Estamos tirando regras de livros de ficção de uma autora, E. L. James, que confessa: a trilogia foi o resultado de minha crise de meia idade. "Todas minhas fantasias estão ali [no livro]".
No fim, não difere muito da mulher de malandro e sua realidade, só transportada para um belo cenário, com toques de refinamento e pitadas dos mais elementares fetiches.
No entanto, se tiver a sabedoria de procurar ir além, ai sim pode ser algo transformador, afinal, não se pode negar, todos nós chegamos aqui por caminhos tortos, ninguém nasceu sabendo ou acertando de primeira.
Está em suas mãos ser mulher de malandro ou uma sub com uma bela trajetória.

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