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terça-feira, 30 de julho de 2013

Do lado de fora...

É inegável que existe um trânsito intenso entre a vida baunilha e o BDSM, ambos se interferem, se modificam, agregam ou separam, nada será como antes depois de aderir ao BDSM e suas práticas.
Aqui no blog costumo falar de um trânsito irregular, de gente em busca de aventuras, de emoções ou até mesmo refúgio, nas entrelinhas tb falo dos que preferem olhar de longe, sem entrar pro meio.
Pois bem, esta postagem pretende dar uma pincelada no assunto, visto que tanto a dominação quanto a submissão fazem parte de nossa natureza, tantas e tantas pessoas convivem com isto no seu dia a dia, pq então não aderem ao BDSM?
Evidente que ter certa natureza não nos obriga a aderir a nada, como uma religião na qual acreditamos que não precisa de frequência a templo pra se provar.
Alguns, sortudos, conseguem encontrar isto na sua vida baunilha, de maneira equilibrada, um 24 x 7 saudável, onde todos os lados se encontram e se completam, muitos de tal maneira que nem passa pela cabeça deles que exista um tal BDSM.
Por coerência, lembro que em outras postagens coloco em dúvida a sanidade de muitas relações ditas 24 x 7, não dá pra fazer uma mistureba que seja conveniente pra ambos (ou pra um só) e pronto, dei nome e posso propagar que vivo aquilo. Dai surgiu as figuras do namoradom, maridom e etc. É recomendável olhar com cuidado pra isto, até mesmo pra quem acha que vive isto, até pq, a sanidade de qualquer membro do BDSM passa por uma vida baunilha arejada.
Retomando o tema principal, existem sim muitas relações bem sucedidas que equilibram bem as diversas naturezas, não é um ritual, uma liturgia que define se é ou não BDSM, mas o encontro de um Dominante e sua sub.
Mas a maioria não tem esta sorte, a maioria não tem sequer a oportunidade, vivem relacionamentos onde, muitas vezes, o parceiro é de igual natureza ou, quando tem, é tão amena que não causa frisson.
Mas ter esta inquietude basta? 
Existe um mundo lá fora, um mundo livre, de trabalho e família, de desafios, de amores e desamores, de sensações, desejos, expectativas, objetivos, projetos, decepções, etc... É o mundo real. O BDSM, acreditem, é só parte disto. Nunca o inverso, não é o BDSM que concede espaço ao mundo baunilha, mas o contrário.
E é a impossibilidade ou capacidade de fazer esta concessão que impede tanta gente de vir pro BDSM.
Não é fácil abrir uma porta, criar um espaço pra se dedicar. Dá medo, é algo desconhecido, abala estruturas duramente construídas, mexe com sentimentos, com convicções, envolve velhos amores, novos...
Por mais forte que seja sua natureza, por vezes ela deve ficar quietinha lá, principalmente quando se tem uma vida tão bem resolvida e construída. BDSM nunca é fuga.
A sabedoria e o diálogo podem resolver algumas questões, saciar algumas necessidades, encontrar maneiras... Mas não devemos confrontar coisas quando bem estabelecidas, a felicidade e realização exigem sacrifícios.
Chegamos a palavra chave, sacrifício. Pq existe um grupo tão grande qto que não é feliz, que anda inquieto, que não anda satisfeito com a vida que leva e como leva, que não encontra respostas, que anda vasculhando recônditos da alma em busca delas. Respostas que encontram no BDSM, mas... Pq não dão o salto necessário?
A resposta é praticamente a mesma, existe uma vida que mal ou bem, é sua, fruto de anos de dedicação e envolvimento. 
Mas não é feliz. É a diferença.
A balança oscila, dúvidas, inseguranças e medos assombram. O BDSM, como muitas coisas na vida, é a arte do encontro (livre adaptação do poeta)... Certos saltos só podem ser dados na companhia certa. E está fácil achar esta companhia? Está fácil encontrar sanidade no meio?
Uma das últimas postagem falei de barreiras, agora falo de algo que vem antes, a decisão de assumir sua natureza.
Envolve decisões e escolhas, e é o momento crucial, pq ali vc pode escolher continuar vivendo sua vida baunilha, lidando com a inquietude; pode aderir mas escolher, conscientemente, paliativos, relações onde não haja plenitude, só amostras do que gosta; pode mentir pra si mesmo e ficar aquém do que pode e quer; pode se considerar incompetente, incapaz, sem mérito, não digna disto ou daquilo e tomar decisões equivocadas; pode se achar o último biscoito do pacote e querer abraçar muito mais do que é capaz de suportar; pode querer criar seu próprio mundinho com regras próprias que te dão segurança e esperar que alguém aceite que assim seja; pode inventar no parceiro baunilha o personagem que supostamente é digno de sua entrega, etc...
Em tese, o BDSM pleno se dá quando ocorre o encontro de duas pessoas que compartilham mesmos desejos, expectativas, vontades e, no decorrer da relação, se aprofundem no outro, evoluam e atinjam juntos a plenitude da relação. Em tese este encontro ocorre de maneira aleatória, imprevisível, até surpreendente. Em tese vc deve manter a mente aberta pra se permitir este encontro. Consequentemente, vc vai dar muita cabeçada, cometer muitos erros, fazer escolhas erradas mas que vão te amadurecendo, afinando a sensibilidade, apurando o faro na busca.
Mas quem quer dar cabeçada? Quem quer enfrentar uma caminhada de aprendizado? Muitos querem segurança, muitos tem pressa, muitos se acham acima do bem e do mal e/ou merecedores da sorte eterna.
Usando uma imagem, quando vc para na frente do portão da casa imaginária do BDSM, a decisão de entrar envolve muita coisa, principalmente sua disposição. Sua disposição pode, por exemplo, achar que o porteiro é o cara certo, escolha conveniente. Sua disposição pode te fazer girar nos calcanhares e voltar pra casa. Sua disposição pode te fazer aceitar um rostinho conhecido que deu de cara assim que entrou. Sua disposição pode já ter feito a escolha antes na figura do acompanhante que entrará contigo. Sua disposição pode se contentar com o primeiro encontro razoavelmente bem sucedido. Sua disposição pode te fazer decidir pela aparência, pelo que mais se aprece com o que busca. Ou sua disposição pode te dar boas doses de paciência e filtro pra aceitar somente aquilo que te parece sério, sólido e possível de te complementar.
Claro que mesmo por caminhos tortos as coisas podem acontecer da melhor maneira. O inverso tb é verdadeiro. Nada assegura que seus objetivos sejam atingidos, mas nos equívocos e desacertos já vai adquirindo base pra vôos maiores.
Vejam que estou falando de gente que tem a real natureza, mas nem sempre bem resolvidas qto a isto. Gente que ainda tateia em busca de segurança. Gente que ainda olha pra vida baunilha e sente medo de ter mais perdas que ganhos.
Não podemos negar que o BDSM deve compor de maneira equilibrada algo bem maior que é nossa vida, não pode ser causa de desajuste, mas tb não podemos ignorar que bem feito, dentro dos conceitos mais puros, é plenamente capaz de compor sua vida, não existe nada que te impeça de ser feliz, de atingir seus limites e capacidades, basta que aceite sua natureza e se empregue na busca de seus objetivos se doando, encontrando seu parceiro de caminhada, buscando cumplicidade, confiança, relações saudáveis, consensuais...
É assustador parar na frente do portão, passamos horas, dias, semanas só olhando pra ele, buscando força pra passar por ele. Tb não é um caminho sem volta, se por um lado não é um clube de prazeres, tb não é uma prisão. Sempre falo que o Dom deve ser capaz de te levar até os lugares mais ocultos de sua natureza mas, acima de tudo, te trazer de volta.
É certo que a maioria das verdadeiras submissas e dos verdadeiros Doms continuam ou estão na vida baunilha, longe do meio. Meio do qual nunca fizeram parte ou já se afastaram. Não é fácil se dedicar, se envolver, vivenciar o BDSM verdadeiro, ele exige responsabilidade, doação, comprometimento e nem todo mundo está disposto a isto. É tentador buscar paliativos, é fácil nunca ter que se desafiar vivendo relações sob medida. 
Muitos que resolvem passar pelo portão dão de cara com oportunistas, como propagandas de panfletos distribuídos no comércio, é desanimador. Hoje, muito pouco de verdadeiro BDSM é encontrado, o legítimo BDSM tem seus meios de sobrevivência, sua reserva, seu ambiente propicio. 
Entrar, lidar com as propagandas enganosas, com a tentação da relação acomodada e conveniente, fazer escolhas, buscar seu complemento verdadeiro acaba servindo de filtro pra saber quem está disposto, quem é verdadeiramente BDSM, pq o resultado depura, nos permite vivenciar algo muito especial.
Se vc está ai diante do portão, se vc passou por ele mas ainda te falta coragem pra ter ambições mais elevadas, se desconfia da sua capacidade, mas se o que te trouxe até aqui é uma natureza legítima, não desista, seja perseverante pq valerá a pena.



Fórum
Não sei qtos leitores já viram meu fórum, um espaço que criei pra discutir o BDSM, um espaço pras pessoas se manifestarem, discutirem, até comentarem as postagens. Não é algo ambicioso e tive o cuidado de colocar algumas condicionantes para participarem, evitando que perca o sentido da boa discussão. Todos são bem vindos, mas reforço que o intuito é tão somente discutir o BDSM, dentro de um ambiente agradável e respeitoso.
Basta acessar pelo link no alto da página, à direita.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Barreiras de uma sub.

Sabe qual é o grande diferencial entre as subs que se realizam e as que ainda não alcançaram seus sonhos? Tem uma barreirinha que elas conseguiram superar. Todas elas tiveram uma barreira inicial, que travava, limitava... Um desconforto, um medo. Mas tiveram coragem pra derrubar a barreira, adquiriram confiança e conforto pra servir.
Em cada história de sucesso vc vê um "conforto" em servir, não que signifique facilidade, conforto significa que aceitaram seu papel, aceitaram o papel do Dono a tal ponto que não queriam outra coisa além daquilo.
A caminhada inicial, de formação da sub, quase se resume a isto, vencer a barreira e deixar fluir.
Tem o que se aprende, claro, mas só se aprende, só se absorve quando se permite, quando não existe filtro, barreira impedindo.
Em cada sub que se torna referência, exemplo se destaca a fluidez da submissão, pq quando existe fluidez, tudo é natural, acaba convergindo para o que foi ensinado.
Se vc acha que uma sub lembra-se do que foi ensinado no momento exato que recebe uma ordem, se engana, ela não é tomada por pensamentos do tipo: sub deve fazer isto, sub não deve questionar, sub não deve argumentar, etc... Estes pensamentos são as barreiras, limitadores. No momento exato que a sub recebe uma ordem ela só tem um pensamento: obedecer da melhor maneira possível, fazer o seu melhor.
Evidentemente está implícito que a ordem respeita a consensualidade, caso contrário, toda e qualquer reação contrária é plenamente justificada.

Existe uma frase comum no meio: a submissão é libertadora.
Pq é quando vc consegue fazer tudo que deseja e desejou, sem medo. Observe a qtde de desejos, vontades, expectativas que levam alguém a se descobrir submissa, imagina a alegria de poder realizar, fazer sem medo, sem pudor, sem se sentir julgada. É a liberdade de ser o que de fato vc é.
Mas nenhuma sub consegue isso de maneira fácil, todas enfrentaram suas barreiras, provavelmente todas pensaram em desistir.
Fluir significa que se tem a percepção de que é sua submissão que vem na frente, nada mais interfere, é isto que agrada ao Dono, é isto que a destaca, que a torna atraente, especial, orgulho de seu Senhor. Nenhum outro artifício vale mais que a própria submissão.

O entendimento da submissão envolve perceber que não precisa agradar com roupas, com erotismo, com apelo de qualquer espécie, exceto quando desejo do Dono, compõe o entendimento de que se sua submissão é natural e intuitiva, isto basta. É uma das barreiras a superar, entender o que de fato é importante pra uma sub e se sentir capaz de se doar neste objetivo, na entrega.
Portanto, não é no aprendizado que se falha, não existe um caminho longo de aprendizado, existe sim uma dificuldade em derrubar a barreira, se libertar.
Ser sub é confiar, deixar tudo na mão do Dono. Se vc não tem conseguido isso, se vc faz as coisas sempre com uma ressalva, sinal que a informação, antes de ser recebida por vc, passa pela barreira, sofre um sobressalto, um filtro, não flui.
Tudo que é conversado, tratado entre Dom e sub serve como norte, mas é quando começa a ser natural, mais próxima estará de ser a sub que deseja.
A barreira envolve história de vida, formação, conceitos... Não é fácil se libertar de bagagem tão grande, de tantos medos, receios. Mas servir é saltar no escuro, caminhar sem medo.
Existe apenas um pequeno detalhe... Ou imenso detalhe... Superada a barreira, que tipo de sub se revela?
Cabe ao Dom olhar além da barreira. Como quando olhamos por cima do muro pra ver como é uma casa, ou olhamos através das grades e cercas. Vc não vê o muro, a grade, a cerca, vc vê o que fica por trás. Buscamos onde dorme a sub, tentamos ver que tipo de sub é. A habilidade de um Dom começa a ser medida ai, na capacidade que tem de enxergar a sub, de acertar na leitura. Pode errar e perder oportunidades, pode acabar comprando um problema, mas pode acertar e encontrar uma bela sub.

O sucesso dos relacionamentos passa pelo sucesso da leitura, do entendimento, da afinidade, da cumplicidade e, fundamentalmente, da confiança.


Se uma sub dorme em vc, o que é preciso pra ela agir com tamanha liberdade? Que vc a permita. O baunilhismo costuma ser uma barreira, uma barreira composta de histórias, medos, coisas que ouviu, que aprendeu... Tem de tudo ali, normalmente essa barreira impede não só a sub, mas te impede de ser feliz. Por isto a sub ajuda a baunilha e vice versa, pq se vc consegue libertar a sub, vc consegue libertar a mulher.