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quinta-feira, 26 de junho de 2014

Afinal, quem é que manda?

Vou tentar esmiuçar algo que vem me chamando a atenção. É um exercício que convido todos os leitores a fazerem, até pq, seja qual for o resultado, certamente aprenderemos mais.
É difícil compreender certas engrenagens das relações BDSM, a principio é uma relação entre um Dominante e um subserviente numa relação continuada, é minha resumida e frequente definição.
Se tem um Dominante, ele conduz a relação, em tese, uma relação por afinidades, onde os dois se completam.
Mas...
Não dá pra não ver que existe um mercado virtual de facilitação das relações, com muita publicidade, anúncios disfarçados e todos os recursos possíveis para valorizar seus atributos tendo como fim atingir seus objetivos.
É onde as coisas desandam...
É sabido que são infinitas as possibilidades de relacionamentos, desde que atendam as mínimas prerrogativas, portanto, defini-las ou resumi-las é impossível, como bem sabemos.
Tb é consenso que as relações são conduzidas pelo Dominante, não? Cada um do seu jeito negocia, apara as arestas e se compromete com aquilo que se inicia.
Isto, num resumo bem simplório, é o BDSM.
E quando a lógica é revertida? 
Pois bem, vou encurtar a parte filosófica, olhando bem de perto, vc descobre que as relações são cada vez mais determinadas pelas "subs", cabendo ao "Dom" apenas um papel protocolar.
"Subs" fazem as regras, definem os scripts, estabelecem os termos da negociação e quem aceitar que assim seja, terá a honra de usar seu nome ao lado do dela.
São "subs" que não buscam um Dono, que não buscam exercitar sua submissão lidando com o desconhecido, se submetendo à vontade alheia, mergulhando em suas zonas mais nebulosas, querem somente alguém que seja daquele jeitinho que elas tanto gostam.
Isto não é novo e, além disto, é conveniente, pq uma das grandes habilidades masculinas é ser justamente aquilo que a mulher quer.
"Me bata" - "Com prazer"
"Me coma" - "Só se for agora"
"Seja carinhoso" - "Tá bom"
Homens são adaptáveis, perfeitos camaleões e executam bem tarefas que lhe são naturalmente prazerosas. Mas dominar que é bom...
Não que isto não possa dar certo, temos diversos exemplos que mesmo começando tortas, algumas relações se desenvolveram, amadureceram com contornos próprios do bom e velho BDSM.
Eu vou mais longe, eu diria que a maioria das relações funcionam assim, dentro do desenho estabelecido pelas "subs", com os "Doms" cumprindo religiosamente seus papéis, e ai daqueles que ousarem fugir do script.
E haja dança das coleiras, pq se não for "obediente, o "Dom" roda. 
Sendo assim, claro que a "sub" se sente no direito de cobrar, de ter crises de ciúmes, de fazer baixarias públicas, de detonar uns e outros, afinal, elas que mandam.
Isto de Dom conduzir a relação é coisa antiga, é jurássico. Regras, que regras se tenho as minhas? Me servem bem e isto me basta.
Isto não torna o "Dom" fraco, afinal, é esperteza, ele tem seus benefícios, mas se quiser mantê-los, siga a risca ou cisque em outro terrenos disposto a exercer outro papel previamente desenhado para caber certinho numa "sub", se a recompensa é boa, pq não?
O legal disto tudo que a grosso modo, é uma putaria interminável, mas é tratado de maneira tão filosófica e profunda que quase convence, fica mais fácil acreditar quando são SUAS verdades, não é?
São belos textos, imagens (algumas nem tanto), são verdadeiros tratados sobre a "submissão", com deliciosas pitadas de romance (50 tons?).
Não existe a experiência real de submissão se vc previamente determina como tudo vai funcionar, quando até as prerrogativas do dominante estão sujeitas às suas vontades.
Mas tudo bem, é um engodo mas que só afeta seu criador. Os riscos, supostamente calculados tb são todos seus. Existe ganho, evidente, eu diria até que o desgaste e a tensão são bem menores, afinal, tudo segue um roteirinho.
Lidar com o inesperado? Conviver com o desconforto? Desconfortável ficava sua avó... 
E como erva daninha, isto vai tomando conta até que começam a se dar conta que nunca se viu um Dom de verdade, eles existem? E as subs de verdade?
Como eu disse no começo, convido a cada uma a refletir no assunto, mas nãos e contente com a superfície, não se contente com as verdades óbvias, faz bem exercitar a reflexão de um assunto que é tão valioso pra nós.

O artesão e sua matéria.

Uma das boas verdades sobre Dominação Psicológica é referente aos eventuais estragos que causa, por imperícia, excesso de vaidade, falta de cuidado, de preparo, etc... Casos não faltam para ilustrar.
Mas é importante analisar com cuidado, pq a boa Dominação promove outros tipos de efeitos.
Vejamos então, usando como referência o artesão e sua matéria prima, a habilidade do artesão no manuseio das ferramentas disponíveis assim como a escolha certa da matéria prima definem o sucesso de sua arte, não?
Pensando no Dom como artesão e a sub com a matéria a ser trabalhada, a combinação de habilidade e afinidades é determinante para o sucesso.
Ou seja, por mais habilidoso e capaz que o artesão seja, suas habilidades de nada valem com matéria prima que não seja de sua esfera de "afinidades".
O manuseio hábil decorre do gosto, da dedicação, do aprendizado e de condições inerentes, de formação mesmo, são pré-existentes certas condições que te fazem um artesão.
Assim como a matéria prima só tem seu melhor uso na "arte" certa, senão vira coadjuvante, acessória, irrelevante, corre o risco de se quebrar ou se perder em mãos pouco habilidosas...
O sucesso da arte depende deste "encontro" entre o artista e sua matéria, da afinidade entre ambos, de como se completam, de como fluem um com o outro.
Não é qualquer artesão ou qualquer matéria, os melhores artesões se perdem e os melhores materiais viram refugos e desperdício em artes que não sejam as suas.
Alguns materiais exigem refinamento, outros exigem força, alguns exigem combinação de habilidades, outros só ganham forma num único manuseio, outros só depois de fases diversas.
E isto, claro, considerando que ali exista um artesão, se formos considerar aqueles que estão ali só por curiosidade, experimento, vontade de aprender, dá pra se imaginar os danos que se pode causar.
Vc pode ter os equipamentos necessários, mas sem a habilidade, vai desperdiçar material.
Tendo em mente o comparativo, coloque argila nas mãos erradas e espere que dali saia um vaso. Quais as chances?
Coloque uma tela branca, tintas e pincéis nas mãos de outro qualquer e espere um belo quadro. Quais as chances?
E uma oficina completa de carpintaria, linda de ser ver, mas sem o habilidoso artesão. Quais as chances?
Veja, usando de novo a referência de artesão, todos nós temos nossas curiosidades, vontades, muitos de nós quer de fato dominar uma arte que já apreciamos. Mas o aprendizado é feito de perdas e ganhos, muita matéria se perderá, muita ferramenta se quebrará, muitos ajustes serão necessários, é inevitável. Nem sempre o estragos são causados por má fé, mas se for, fuja dos inábeis e dos oportunistas.
A questão é que não se pode desistir, os dois lados tem sempre algo a aprender, é uma troca, muitas vezes silenciosa, de mergulhar nos meandros da arte que se busca dominar. Pois é, primeiro se domina arte, pra depois...
Se vc olhar a trajetória dos artesões, lá no começo ele titubeava, cometia erros, metia os pés pelas mãos mas tb estudava, se dedicava, tinha talento pré existente, algo que certamente iria aflorar definitivamente algum dia.
E muita matéria que foi maltratada, teve uso diverso de sua real utilidade, persistindo, vai encontrar as mãos que lhe darão os contornos certos.
O aprendizado é parte do que nos tornaremos, às vezes é preciso passar por percalços até se chegar aonde se quer, aonde muitas vezes nem imaginamos. Tudo depende de nossas escolhas, do quanto nos dedicamos, do quanto persistimos.
Os danos são consequências de nossas escolhas, do quantos nos preparamos para a "viagem", afinal, muitas vezes buscamos os atalhos (artesãos sem preparo, matérias não adequadas, etc.), aceitar eventuais erros é parte do processo, seguir em frente é uma necessidade.